quarta-feira, 15 de abril de 2020

MUNDO VIRTUAL, CONSUMO DE MODA E OS SENTIDOS


Éter, ar, fogo, água e terra: esses são os elementos básicos da natureza segundo a tradicional medicina indiana: Ayurveda. Nós, seres vivos somos feitos deles. E os sentimos através de receptores cujo chamamos de ´órgãos dos sentidos'.


Os órgãos dos sentidos capturam estímulos sensoriais, a partir das nossas sinapses cerebrais transformando luz, som, temperatura, sabores em informações existenciais. Essas informações são repassadas para cada célula do nosso corpo. Um bom exemplo disso é se você escuta uma frase amorosa, aquele sinal é levado a cada célula! Não ficam estagnadas no seu cérebro, como muita gente pensa. Elas viajam para células do fígado, estômago, coração, dedão do pé! Outro exemplo, dessa vez com o paladar, é caso você coma algo estragado - seu corpo busca expulsar as toxinas do organismo e não são só as células do estômago ou intestino que são alertadas do problema, seu corpo todo fica ciente, por isso um conjunto de sintomas são assimilados em partes, às vezes tão distantes! Como a dor de cabeça, por exemplo, que fica tão longe do estômago, porém sente os efeitos da intoxicação.


Como seres eucarióticos, respondemos a tudo dessa maneira, o que inclui o mundo virtual e o nosso consumo consciente ou inconsciente. Consumir é um ato de sobrevivência. Bactérias consomem. Corona vírus consomem seus hospedeiros para sobreviver. Insetos consomem plantas. Esquilos consomem nozes. Onças amazônicas consomem caças. E nós consumimos o quê? Uma complexidade de elementos, incluindo moda e arte.


Todos os animais têm estratégias de sobrevivência. E nós, como animais também temos as nossas. Somos mais afiados nos nossos temas de consumo, pois somos experimentadores natos deles. E através dos nossos sentidos vamos experimentando mais e mais a cada dia.


Ao longo do nosso processo evolutivo, a nossa complexidade cerebral aumentou. Logo, as nossas formas de se relacionar também. E as nossas formas de sentir e consumir também. Começamos a era do super-estímulo. E não, não somos tão rápidos para metabolizar coisas. Não transformamos nossas células em super-células nesses anos de evolução. Elas nascem, crescem, envelhecem e morrem. Como nós. O éter pode até sugerir espaço e o ar promover mais movimento, mas não somos feitos somente desses elementos. Há uma comunhão e harmonia que precisa ser preservada entre eles. O famoso equilíbrio. E se a gente se perde no transparente, no etérico, no virtual...perdemos a presença física. O nosso aterramento. 


Começamos a consumir, consumir, consumir...
Hiper-estimular o sentir, o sentir, o sentir...


Essa trajetória sugeriu movimento virtual dos elementos éter e ar, que antes eram pouco estimulados, pois éramos muito mais instintivos, o que nos leva a sermos muito mais fogo, água e terra. Hoje, o ar e o éter foram consolidados de várias maneiras, principalmente nas tecnologias.


O que antes era fogo, água e terra para os nossos ancestrais humanóides, avós não tão antigos, pensadores e filósofos como o Newton e Platão...nós, descendentes, podemos sentir, aplicar, unir um compilado de conhecimentos, erros e acertos através desse universo não palpável, mas muito expressivo. Se não, o mais.


Em meio a uma pandemia, onde os nossos instintos de sobrevivência ancestrais estão sendo guardados no armário, como vestidos de formatura, fantasias de carnaval, sapatos e paletós executivos. Quem não se adaptou ao mundo virtual, está sendo excluído aos poucos senão bruscamente. Esse movimento já estava acontecendo. Mas o repentino evento que nos obriga a amar pijamas e o estilo confortável, está acelerando a virtualidade em um ritmo frenético.


- Para que comprar sapatos? - Para que tenho tantos sapatos? Em casa, o que me calça é a sola dos meus pés...no máximo meias de pilates ou havaianas.


- Para que comprar roupas? - Para que tenho tantas roupas? – Qual a necessidade desse exagero? Em casa, o que me veste é o que me conforta! E isso se resume a poucas peças.


Sobre as peças em si começam os dilemas mais específicos do consumo de moda. – Quais são essas marcas que me confortam? - Quem fez essas peças? – Da onde vem essas peças? – Por que eu gosto dessa cor? Por que eu me sinto bem com essa blusa e me sinto triste com essa outra?


É nesse ponto que entram duas nuances incríveis da percepção a partir dos sentidos: a) o autoconhecimento – que acontece devido a experimentação de reflexões sobre si, e o ato de vestir, de sentir, do mudar e b) a todos os questionamentos relativos ao consumo mais consciente de moda pelo indivíduo.


Isso não significa que os impulsos do comprar foram eliminados ou que essas experiências são vividas por todos. Entretanto, mesmo quando o consumidor se flagra no impulso do comprar sem precisar ou sem ter formas reais de pagar...existe o refletir sobre tais ações. E então vem à tona, sentimento de culpa, desonestidade, raiva...por essa razão, muitos e-commerces precisam devolver o valor aos clientes desistentes. Esses sentimentos são despertados, pois logo após clicarem de foram impulsiva e comprarem algo que por hora, não existe. O sentimento de vazio e o medo da permanência nesse estado ocorrem justamente porque não há o sentido do tato acontecendo na conclusão da venda. Esses, são presentes no imediatismo das compras em lojas físicas.


Essa jornada de transformações está apenas começando. Tem pouco tempo. Aliás, pouquíssimo tempo que estamos filosofando sobre moda sustentável e suas aplicações teórico-práticas. Que inicia em um indivíduo e termina em um ecossistema. Juntos podemos costurar essa colcha de retalhos que irá servir plenamente para as gerações futuras.



FERNANDA PAZ