Éter, ar, fogo, água
e terra: esses são os elementos básicos da natureza segundo a tradicional
medicina indiana: Ayurveda. Nós, seres vivos somos feitos deles. E os sentimos
através de receptores cujo chamamos de ´órgãos dos sentidos'.
Os órgãos dos sentidos
capturam estímulos sensoriais, a partir das nossas sinapses cerebrais
transformando luz, som, temperatura, sabores em informações existenciais. Essas
informações são repassadas para cada célula do nosso corpo. Um bom exemplo
disso é se você escuta uma frase amorosa, aquele sinal é levado a cada célula!
Não ficam estagnadas no seu cérebro, como muita gente pensa. Elas viajam para
células do fígado, estômago, coração, dedão do pé! Outro exemplo, dessa vez com
o paladar, é caso você coma algo estragado - seu corpo busca expulsar as
toxinas do organismo e não são só as células do estômago ou intestino que são
alertadas do problema, seu corpo todo fica ciente, por isso um conjunto de
sintomas são assimilados em partes, às vezes tão distantes! Como a dor de
cabeça, por exemplo, que fica tão longe do estômago, porém sente os efeitos da
intoxicação.
Como seres
eucarióticos, respondemos a tudo dessa maneira, o que inclui o mundo virtual e
o nosso consumo consciente ou inconsciente. Consumir é um ato de sobrevivência.
Bactérias consomem. Corona vírus consomem seus hospedeiros para sobreviver.
Insetos consomem plantas. Esquilos consomem nozes. Onças amazônicas consomem
caças. E nós consumimos o quê? Uma complexidade de elementos, incluindo moda e
arte.
Todos os animais têm
estratégias de sobrevivência. E nós, como animais também temos as nossas. Somos
mais afiados nos nossos temas de consumo, pois somos experimentadores natos
deles. E através dos nossos sentidos vamos experimentando mais e mais a cada dia.
Ao longo do nosso
processo evolutivo, a nossa complexidade cerebral aumentou. Logo, as nossas
formas de se relacionar também. E as nossas formas de sentir e consumir também.
Começamos a era do super-estímulo. E não, não somos tão rápidos para metabolizar
coisas. Não transformamos nossas células em super-células nesses anos de
evolução. Elas nascem, crescem, envelhecem e morrem. Como nós. O éter pode até
sugerir espaço e o ar promover mais movimento, mas não somos feitos somente
desses elementos. Há uma comunhão e harmonia que precisa ser preservada entre
eles. O famoso equilíbrio. E se a gente se perde no transparente, no etérico,
no virtual...perdemos a presença física. O nosso aterramento.
Começamos a
consumir, consumir, consumir...
Hiper-estimular o
sentir, o sentir, o sentir...
Essa trajetória
sugeriu movimento virtual dos elementos éter e ar, que antes eram pouco
estimulados, pois éramos muito mais instintivos, o que nos leva a sermos muito
mais fogo, água e terra. Hoje, o ar e o éter foram consolidados de várias
maneiras, principalmente nas tecnologias.
O que antes era
fogo, água e terra para os nossos ancestrais humanóides, avós não tão antigos,
pensadores e filósofos como o Newton e Platão...nós, descendentes, podemos
sentir, aplicar, unir um compilado de conhecimentos, erros e acertos através
desse universo não palpável, mas muito expressivo. Se não, o mais.
Em meio a uma
pandemia, onde os nossos instintos de sobrevivência ancestrais estão sendo guardados
no armário, como vestidos de formatura, fantasias de carnaval, sapatos e
paletós executivos. Quem não se adaptou ao mundo virtual, está sendo excluído
aos poucos senão bruscamente. Esse movimento já estava acontecendo. Mas o
repentino evento que nos obriga a amar pijamas e o estilo confortável, está
acelerando a virtualidade em um ritmo frenético.
- Para que comprar
sapatos? - Para que tenho tantos sapatos? Em casa, o que me calça é a sola dos
meus pés...no máximo meias de pilates ou havaianas.
- Para que comprar roupas?
- Para que tenho tantas roupas? – Qual a necessidade desse exagero? Em casa, o
que me veste é o que me conforta! E isso se resume a poucas peças.
Sobre as peças em si
começam os dilemas mais específicos do consumo de moda. – Quais são essas
marcas que me confortam? - Quem fez essas peças? – Da onde vem essas peças? –
Por que eu gosto dessa cor? Por que eu me sinto bem com essa blusa e me sinto
triste com essa outra?
É nesse ponto que
entram duas nuances incríveis da percepção a partir dos sentidos: a) o
autoconhecimento – que acontece devido a experimentação de reflexões sobre si,
e o ato de vestir, de sentir, do mudar e b) a todos os questionamentos relativos ao
consumo mais consciente de moda pelo indivíduo.
Isso não significa
que os impulsos do comprar foram eliminados ou que essas experiências são
vividas por todos. Entretanto, mesmo quando o consumidor se flagra no impulso
do comprar sem precisar ou sem ter formas reais de pagar...existe o refletir
sobre tais ações. E então vem à tona, sentimento de culpa, desonestidade,
raiva...por essa razão, muitos e-commerces precisam devolver o valor aos
clientes desistentes. Esses sentimentos são despertados, pois logo após
clicarem de foram impulsiva e comprarem algo que por hora, não existe. O sentimento
de vazio e o medo da permanência nesse estado ocorrem justamente porque não há
o sentido do tato acontecendo na conclusão da venda. Esses, são presentes no
imediatismo das compras em lojas físicas.
Essa jornada de
transformações está apenas começando. Tem pouco tempo. Aliás, pouquíssimo tempo
que estamos filosofando sobre moda sustentável e suas aplicações
teórico-práticas. Que inicia em um indivíduo e termina em um ecossistema. Juntos
podemos costurar essa colcha de retalhos que irá servir plenamente para as
gerações futuras.
FERNANDA PAZ

